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11 de nov de 2016

PRA REFLETIR: Minha Transição Capilar e de Ideias!




Dia 31 de Outubro completou 1 ano em que eu dei a louca e resolvi  cortar anos de um estilo para descobrir um novo. Pense aí, você alisa seu cabelo aproximadamente desde os 10 anos, acostumou-se com aquele padrão de fio e em segundos deixa cair essa acomodação no chão do salão. Sim, fez 1 ano do meu BC, big chop, ou melhor, “grande corte”. 

Antes de contar como foi esse primeiro ano, acho importante dizer como eu decidi “me libertar das químicas de cabelo”. E não vou mentir e dizer que foi num ato decidido de aceitação e de empoderamento negro. Na verdade, aconteceu de uma forma: 

“Acho que poderia fazer... Será? Fiz! Meu DEUS”. 



Sempre tive relutância em voltar a ter meu cabelo de origem. Quando levantavam esse assunto, eu me escondia atrás dos argumentos de que era trabalhoso ou que se meus cachos fossem mais “domados” eu deixaria. Mas nessa época, eu nunca cheguei a me questionar se falava isso realmente porque achava isso, ou porque sempre fui condicionada a pensar dessa forma. Até que eu me encontrei dentro de um contexto que me permitiu questionar, ligar aquela pequena luzinha para pensar sobre. Estar em meio a meninas que faziam a transição me ajudou muito, muito mesmo encarar a minha. E não por querer imitar, ou ser “Maria vai com as outras”, mas por elas fazerem notar essa atitude que antes eu nunca tinha visto outras fazerem, e despertarem em mim a curiosidade e o questionamento: Como era meu cabelo? Por que eu aliso?

Transição! Oito meses sem química.
Eu fazia relaxamento e confesso que nunca fui disciplinada, daquela que tinha que retocar de três em três meses, urgentemente. Já cansei de deixar minha raiz alta aparecer. Então, minha transição foi acontecendo com esse meu “desleixo”. Fui deixando, deixando... Até que quanto mais crescia e eu não retocava, mais eu tinha curiosidade com aquelas pequenas ondas que surgiam, mais eu as via como um enigma a ser descoberto, do que como algo que não presta e precisa ser arrumado. E mais os questionamentos viam também. Até que eu mesmo comecei a levar a sério essa ideia de cortar, me defendendo mentalmente com “se eu não gostar é só relaxar de novo”. 

Pronto. Oito meses após meu último relaxamento e eu decidi, na doida, ainda com a batalha de “quero experimentar, mas será que faço?” na mente. Não minto, foi um susto me ver com um novo cabelo no espelho. E pior (ou melhor), a cabelereira perguntou só uma única vez “posso cortar?” e quando eu assenti ela passou tesoura de uma vez no rabo de cavalo. Não tinha mais volta. Eu olhava para mim e só pensava no que os outros iam falar. Eu só pensava no cumprimento do meu cabelo que confesso sempre foi algo que eu relutava em me desfazer. Confesso que no primeiro dia, eu fiquei até evitando tocar no meu cabelo para não ter que sentir a realidade e me arrepender. Poxa, porque essa reluta algo que era meu?

O dia do Grande Corte!

Só que aí eu fui encarando e enfrentando meu cabelo e vendo que a luta não era contra ele e sim
contra todos os estereótipos que tinha dentro de mim, e que tinha em outros e eu absorvia. E acho que esse foi o maior aprendizado da transição e pós-BC: Redescobrir-se. Você não só redescobre uma estrutura capilar diferente. Mas redescobre outras milhões de belezas que você tinha e passavam despercebidas. Você descobre que tem mais autonomia para usar um brincão, uma sobrancelha arqueada, um batom de personalidade. Você se olha no espelho e brinca com a imagem que vê: “será você? Sou eu?”. E sim é uma nova você, uma nova eu. Eu gosto muito de indicar esse confronto. Vá para o espelho, se olhe, se encha de defeito, depois se pergunte por que você colocou esses defeitos, porque eles não são suas qualidades? Não há nada que possa tirar de bom e bonito dali? E eu tirei. Do meu reflexo eu tirei uma pessoa mais madura, um desafio de se valorizar, uma forma de dar para aquele novo cabelo e aquela nova Paula, um novo tratamento.

Que vão ter pessoas para falar “aquele cabelinho”, sempre vão ter. Elas vão te desanimar nesse percurso de aceitação e autoestima, vão. Mas as críticas estão ali apenas para lembrar porque fizemos e mantemos essa nova atitude e visual: Para mostrarmos que podemos ser quem quisermos e ninguém pode menosprezar isso, ou ditar o que é bom ou não. Não precisamos de hierarquia de belezas, raça, ou o que for. Somos o que somos e precisamos de respeito. E é mantendo quem somos, ou o que nos rechaçam é que vamos resistindo. 


Meu incentivo:

Acho que a primeira coisa que precisamos fazer é problematizar a nós mesmo. Caso você alise seu cabelo, pergunte-se: Por que aliso? Por que não usaria meu cabelo natural? Eu me importaria com a opinião dos outros? 


Questione-se de forma a tentar mapear se a visão que você tem de crespos/cacheados não estão envoltas de um padrão social, de um condicionamento feito pela sociedade.

E quais condicionamentos seriam esses? Achar que volume é problema; que estrutura não definida é sinônimo de desarrumado, que cabelos para “cima” não é feminino, que cabelo não liso é “pixain”, “cabelo de nego” (é sim e aí, deveria ser um problema?), “é sujo”, diversos pensamentos que resvalam estereótipos racistas. 

E sabe por que esses condicionamentos estão errados? Porque existem estruturas capilares diferentes. E mesmo assim, não quer dizer que um é melhor que outro. Essa ideia de “cabelo bom/ruim” é puramente padrão social, feito láaaa atrás por nossos ancestrais racistas. Cada cabelo tem sua característica. 

Tem mil formas de usar sim! Experimente.


Por isso quando perguntam se meu cabelo dá trabalho, eu insisto que o trabalho que ele vai dá é se você quiser buscar perfeição e definição e não aceitar todas as características inatas que nosso cabelo tem. Tem frizz, é armado, te volume, não vai ficar no lugar sempre. 

Não devemos impor a característica do cabelo liso no cabelo cacheado/crespo, como muitas vezes já foi feito. E talvez, seja por isso que muitas meninas tem essa memória ruim com seus cabelos. Porque na infância tiveram seus cabelos cuidados da forma “lisa” e padrão de tratar. Penteando forçadamente e recendo puxões. Colocando para “se comportarem” aqueles cachos que deveriam estar nas alturas. Recebendo críticas dos coleguinhas quando se tinha um cabelo livre. 

E convenhamos o problema não são os cachos, crespo ou liso. Não é a estética em si, mas sim a ideologia que ele leva ou implica. Eu alisava porque achava que era o padrão. Nunca pensei além.
Eu só acho válido isso: problematizar e tentar enxergar além sempre. 



Vou dizer também que vejo muito radicalismos dos dois lados, como se fosse uma briga de quem é melhor. "Ah, proibido alisar", "ah agora é ditatura dos cachos, vamos ficar alisadas mesmo", como se fosse birrinha, quando na verdade a luta deveria ser para que todos aceitassem a nossa diversidade sem subjugar nem enaltecer um padrão em detrimento de outro.   
                    
Mas me sinto orgulhosa de ter desconstruído esse pensamento antigo. E se optar pelo liso hoje, ou qualquer dia desses, não ter sido uma obrigação. Mas sim porque eu tenho a opção de escolher o estilo que quero.

Por isso que temos que redescobrir como cuidar e do que nossa juba precisa. E quem sabe até experimentar a juba. Juba sim, porque nossos cachos são livres e isso não é defeito.

Sobre experiências:

- Até você encontrar os produtos que se identifique, vai ser quase uma compulsão querer comprar
produtos e testá-los. Você vai virar a louca dos produtos de cabelo. Não vai aguentar uma sessão de cosmético no supermercado ou farmácia que irá direto para ela ver os produtos de Cachos;

- Prisilhinhas, tiaras, brincos, brincos, batom, muito batom, prisilhinhas e brincões. Outras aquisições viciantes;

- Enquanto seu cabelo cresce, TODA cacheada que você ver vai virar modelo de comparação: “Será que meu cabelo é igual ao dela”. E sua amiga vai virar sua principal consultora para te dar essa resposta;

- Quase um tic que eu desenvolvi depois da transição é enrolar os cachinhos de trás. Gente, é inconsciente, quando eu vejo eu já tô enrolando. Porém, alerta: Às vezes as pessoas vão pensar que você tá flertando com elas. HAHA Gente, juro que não é;

- Fator encolhimento: Seu cabelo cresce 2 cm e encolhe 5cm. Molhado ele está na bunda, seco vai parar na orelha. 

- Cabelo cacheado dá trabalho? O trabalho que eu tenho é levar 2 a 3 vezes na semana, desembaraçar no banho (acho que desembraçar é a parte mais trabalhosa, mas como liso também era...), hidratar e pentear com os dedos, todo processo de finalização não leva 10 minutos. Dura 3 a 4 dias sem fazer nada, só uma passada de gel na frente ou pente garfo para dar volume. De resto, é aceitar que meu cabelo é livre e volumoso e vai ficar sem definição às vezes;

- E por falar nisso: Nosso cabelo nunca será o mesmo que aparenta na transição. A estrutura pode ser menor. Mas calma. Não é porque ele não vai ficar como você pensava que isso é um problema. Sem hierarquia de estruturas, ok? Redescubra-se. E sem descriminações com os tipos 4, nem todo cacho é perfeito, mas sim poderoso.


- Cachos 2abc são os ondulados, 3abc os cacheados, 4abc os crespos. Nem todo cabelo é exclusivamente um tipo. Pode ter várias misturas. 

- Por mais que você queira que outras pessoas também experimente essa atitude de se redescobrir, e que passe pelas mesmas experiências que você, tenha cuidado em não criar uma nova “ditadura”. Já cometi esse erro, confesso. E muita gente se sente incomodada quando impomos algo para elas. Cada um tem seu livre arbítrio para ser o que quiser e se identificar com o que quer. Só não vale menosprezar o outro, nem criar hierarquias de “x é melhor que y”.


1 ANO!







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