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13 de mai de 2016

PRA REFLETIR: Ookami Shujo To Kuro Oji e relacionamento abusivo na ficção





Por um belo acaso do destino, enquanto procurava alguma coisa interessante na Internet, eis que me deparo com um anime todo fofo, com aquelas coisinhas Kawaii e todas as características que um anime romântico precisa ter: uma menina fofinha e um cara bad boy.

Ookami Shujo To Kuro Oji foi publicado como mangá em uma revista japonesa em 2014, e só depois virou o anime que conta a história de Erika Shinohara, uma garota de 16 anos que mente sobre ter um namorado para as amigas, quando na verdade ela não tem um, e faz isso para se enturmar. Quando as pessoas começam a desconfiar que tudo não passa de uma invenção, Erika decide procurar alguém que possa servir pelo menos para que ela tire uma foto e anuncie como seu boy. Ela encontra então, uma garoto muito bonito, e espalha entre suas amigas (que acabam contando à escola toda) que ele é o seu namorado, ela só não contava que esse menino estudasse no mesmo lugar que ela. 

Kyoya Sata é super popular, bonito e gentil, tanto que concorda em fazer parte da mentira de Erika, mas como nada é de graça nesse mundo, tem uma condição: ela terá que fingir que é o cachorrinho dele, enquanto todo mundo acredita que são um casal apaixonado. Eu também não entendo onde isso faz sentido!

Ao total são 12 episódios, e como o passar da história o relacionamento deles vai ficando mais fake, à medida em que Shinohara age como seu cãozinho obediente. No início, tudo fazia parte do jogo de manter as aparências, mas a menina se apaixonou (típico) e continuou a agir desta forma por conta do sentimento que tinha pelo garoto. Foi aí que comecei a questionar se esse não seria o que podemos chamar de relacionamento abusivo. Pesquisei mais sobre o assunto e descobri que sim, conforme as coisas aconteciam tudo se enquadrava nas características e peculiaridades de um relacionamento abusivo.



Antes de tudo: que fique bem claro que não tenho o hábito de assistir a muitos animes, principalmente os românticos, então não sei de que forma esse tipo de assunto pode ser tratado em outras produções. 

Uma relação abusiva é marcada por controle excessivo, violência física e verbal, ciúmes demasiado e até mesmo frieza emocional. Além de fazerem com que o parceiro acredite não ser bom o bastante para o outro (ou em qualquer aspecto). Em Ookami, Sata está sempre controlando o que Shinohara pode fazer, suas atitudes e inclusive com quem ela pode, ou não, se relacionar. Por exemplo: no Dia dos Namorados, Erika resolve fazer um agrado a um amigo que estava enfrentando problemas a respeito de sua sexualidade porque sua família nunca o tinha visto receber nada especial na data, Kyoya descobre sobre essa ajuda e, além de recusar seu presente e trata-la mal, faz com que a menina repense sobre sua atitude e considere-a errada. Sem contar, é claro, as inúmeras vezes que ele chantageia a garota prometendo contar a verdade – que estão apenas fingindo para a escola toda – caso ela não faça o que ele quer.



Ciúmes também é um marco na relação dos dois. Todas as vezes que Erika se aproxima de algum menino e passa a ter certo grau de amizade com ele, Sata a trata mal e faz questão de deixar bem explicito sua possessividade sobre ela. Em determinado momento, Shinohara resolve pôr um ponto final a história e seguir sua vida, mas Sata vai atrás dela, jura que está apaixonado e que a partir dali serão namorados de verdade, mas as coisas não mudam: ela continua sendo apenas o cachorrinho dele, que costuma chama-la de Wolf Girl. O mais engraçado nisso tudo, é que Kyoya aparenta ser tão gentil aos outros, mas age de uma forma completamente diferente com sua namorada, que continua se submetendo ao tratamento nada afetivo dele.



Em determinada parte, o anime tenta explicar o comportamento de Kyoya a partir do fato de que sua irmã também agia da mesma maneira ríspida e intolerante com ele, mas não acho que este seja um tema passível de justificativas como tal.

Foi só depois de perceber o quão explicito esse tipo de relação foi retratada no anime (quer tenha sido a intenção dos criadores, ou não) que comecei a refletir e questionar todos os outros casais com que já me deparei (e isso não foi só no âmbito imaginário) e descobri que existem muitas outras relações abusivas que conseguem passar aos nossos olhos como lindas histórias de amor. Acho que me peguei numa vibe meio problematizadora, o que foi um pouco surpreendente, mas serviu para me abrir os olhos e enxergar que nem sempre amar alguém é motivo bastante para se submeter a algumas situações.



Em conversa com as meninas, conseguimos notar que essa coisa de relacionamento abusivo não é tão incomum na ficção, por isso, Paula resolveu contar um pouco mais sobre o assunto. Com a palavra, Paula Joane:

Pegando o ensejo de Gabi e trazendo um retrato de relacionamentos incomuns dentro de história de ficção, selecionei alguns outros “casais” famosos que deveriam ganhar toda nossa atenção na hora de idealizar e compactuar com suas histórias “românticas”. Para falar sobre isso, poderíamos até retomar o “gaslighting”, que é uma persuasão do agressor, fazendo a vítima duvidar de si mesmo. Ser abusivo é exploração, é colaborar com mal-estar de uma das partes da relação. E isso nunca deve ser visto como algo romântico.

Foto: Reprodução

Arlequina e Coringa: Insanos. O fato é que essa dupla de “palhaços do mal” vem toda envolta de uma psicologia do crime e psicopatia. A Arlerquina era psicóloga do hospício Arkham e tornou-se obcecada pelo Coringa. Com os holofotes em Esquadrão Suicida, com a Margott divosa e o Leto divoso igual, é quase um crime não querer ver essa dupla junta e interagindo. É compreensível ser atraída pelo estilo dos dois, pela loucura quase divertida deles. Mas paremos para analisar esta relação enquanto história: Há diversas apelações da Arlequina querendo afeto do Curinga e ela é sempre desprezada. Há cenas de violência física. Há o medo. Há obsessão. E há dependência psicológica e degradação moral. Sim, é uma relação abusiva. E antes de qualquer um querer intitular como romance de loucos, precisamos pensar que isso não é amor. A personagem feminina é subjugada sempre.

Foto: Reprodução

Khal Drago & Daenerys Targaryen: Antes de considerar a relação de Dany e Drogo como abusiva ou não, vale ressaltar o contexto dentro da série. É uma série medieval, o personagem masculino é de uma tribo de bárbaros, sem contato com demais culturas, e que ver a todos e tudo com suas regras. Logo, a Dany foi vendida para ele para se tornar sua Khaleesi, ou esposa. Era uma relação abusiva? Antes de mais nada, no começo não era nem relação. Não dá para considerar que um casamento comprado, em que ele abusava sexualmente, primitivamente, era sequer uma relação. Porém, a Dany consegue conquista-lo e no contexto Dothraki, digamos que eles construíram uma afinidade. Eu já me peguei shippando “Meu sol e estrelas” e “Lua da minha vida”, porque dar-se a entender que ouve uma redenção dele, pelo menos para com ela. Sim, o Drogo chega a amá-la e protege-la e após esse momento não temos uma relação pautada em abusos com a Dany. O adendo que faço apenas é: por mais que seja tentador pensar que personagens podem ter suas redenções e carga romântica, o início e atos do passado sempre têm que ser considerados. GoT é uma ficção! Precisamos separar e pensar que nem todo relacionamento que tenha bases abusivas pode evoluir para um romance. Muito menos utilizar esse pensamento como desculpa para continuar e justificar com abusos que podem ser evitados.

Foto: Reprodução

Raito & Misa-Misa: Eles foram os mais próximos de um casal que a gente teria no mangá Death Note. Misa-Misa que também porta um caderno que tem o poder de matar pessoas é obcecada pelo Raito, também conhecido como Kira. Demasiada essa admiração ela faz de tudo para conhecê-lo, até compactuando com as ideologias de Deus do Novo Mundo que ele tinha. Muitos poderiam dizer que a Misa é uma besta por fazer tudo que o Raito queria, incluído dar metade de sua vida em troca dos olhos de Shinigami. Raito nunca amou a Misa. Ela era uma peça no jogo dele e ele não hesitaria nem um minuto em jogá-la na mira, se isso fosse salvá-lo. Ele sempre usou da obsessão dela para conseguir o que queria. Chegava a ser até inquietante. Confesso novamente, que quase cheguei a shippar, naquela velha esperança dele demonstrar um pingo de sentimento diante do “amor” dela. Porém, se apegar nessa expectativa diante do contexto de exploração seria mais uma forma de romantizar um abuso psicológico preocupante, que não mudaria.

Infelizmente, diversos desses casais estão ligados a uma obsessão quanto ao lado feminino e como há o aproveitamento dessa condição psicológica fragilizada da vítima. Observe, questione e não colabore para que diversos receptores de histórias ficcionais vejam como “normais” um discurso e posicionamento que não pode ser visto como tal. Histórias servem sim para representar e aludir à realidade e não precisamos de mais incentivo à degradação humana, nem acharmos que elas podem passar sem causar incomodo em nossa recepção.

Gabriela Santos e Paula Joane









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